Resumo:
O fim da escala 6x1 e a redução gradual da jornada de 44 para 40 horas trazem novos desafios para as empresas, especialmente em relação à organização das demandas e à saúde mental dos trabalhadores. O artigo aborda o risco de concentrar as mesmas tarefas em menos horas, aumentando a pressão e a sobrecarga.
Com 546 mil benefícios concedidos por transtornos mentais em 2025, mudança na jornada levanta discussão sobre intensidade do trabalho e riscos à saúde mental.
Imagine conquistar um dia a mais de descanso por semana e, ainda assim, chegar ao fim do expediente tão exausto quanto antes, com a mesma lista de tarefas, as mesmas metas e a sensação de que o tempo nunca é suficiente. É esse o risco que acompanha o fim da escala 6×1, promulgado em 16 de outubro, que passa a garantir aos trabalhadores dois dias de descanso semanal e reduz gradualmente a jornada máxima de 44 para 40 horas, mudança histórica que pode perder parte do seu efeito caso as mesmas demandas sejam simplesmente concentradas em um número menor de horas.
O alerta ganha ainda mais peso diante de um cenário que já preocupa especialistas e gestores, pois o Brasil registrou 546,2 mil benefícios por incapacidade temporária relacionados a transtornos mentais e comportamentais em 2025, uma alta de 15,7% em relação ao ano anterior, segundo o Ministério da Previdência Social. Os números não indicam uma relação direta entre a escala 6×1 e o adoecimento mental, mas reforçam a necessidade de avaliar com mais cuidado como o trabalho é organizado, já que o desgaste emocional nasce tanto da quantidade de horas trabalhadas quanto da forma como elas são vividas, do ritmo imposto, da cobrança por resultados e da ausência de pausas reais ao longo da jornada.
Os números mostram que a discussão sobre tempo se encontra com a discussão sobre intensidade, pois quando a carga de trabalho permanece a mesma e o tempo disponível diminui, o resultado tende a ser um expediente mais acelerado, com menos intervalos, mais urgência e maior dificuldade de desconexão, o que anula, na prática, o benefício do descanso adicional, e para quem atua em setores de atendimento contínuo ou de grande pressão operacional o risco é ainda maior, já que a reorganização das escalas costuma vir acompanhada da necessidade de manter o serviço funcionando com equipes que, muitas vezes, já operam no limite.
“O risco é transformar uma conquista de tempo em uma rotina de maior intensidade. Se o trabalhador passa a ter dois dias de folga, mas precisa cumprir as mesmas metas sob mais pressão, parte dos fatores de desgaste continua presente. Não basta mudar a escala sem olhar para o que acontece durante o expediente“, avalia Caroline Macarini, psicóloga (CRP 06/156341), cofundadora e responsável técnica da Unolife.
A mudança exige mais do que reorganizar escalas
Com a transição para a jornada de 40 horas, as empresas precisarão rever a distribuição das tarefas, as metas e o dimensionamento das equipes, o que significa olhar para dentro da operação e questionar quais demandas são realmente prioritárias, quais processos podem ser simplificados e de que forma o trabalho pode ser dividido de maneira mais equilibrada. Trata-se de uma revisão que vai além do calendário e alcança a cultura organizacional, a forma como lideranças definem prazos e a maneira como o desempenho é cobrado e reconhecido no dia a dia.
A discussão também se conecta diretamente à NR-1, norma que prevê o gerenciamento dos fatores de riscos psicossociais relacionados ao trabalho, entre eles a sobrecarga, o excesso de demandas e a pressão por metas. Na prática, isso significa que as empresas não precisam apenas se adaptar à nova jornada, mas também identificar, avaliar e acompanhar os fatores que podem comprometer a saúde mental de suas equipes, transformando a mudança legal em uma oportunidade de construir ambientes mais saudáveis e, consequentemente, mais sustentáveis e produtivos.
Para Caroline, a redução da jornada representa justamente a chance de repensar práticas que contribuem para a sobrecarga, especialmente em setores com atendimento contínuo e maior pressão operacional, onde o desgaste costuma ser mais visível e o impacto sobre o bem-estar dos profissionais é mais imediato. Quando bem conduzida, a transição pode fortalecer o vínculo entre trabalhadores e empresas, melhorar a qualidade do cuidado oferecido às pessoas e reduzir o afastamento por adoecimento, beneficiando todos os lados da relação de trabalho.
“Uma folga adicional pode favorecer o descanso e a vida pessoal, mas não deve funcionar como compensação para uma rotina de trabalho adoecedora. O objetivo precisa ser reduzir também as condições que geram desgaste, e não apenas o número de horas”, acrescenta.
Sobre a Unolife
Fundada em 2020, a Unolife é uma plataforma brasileira de saúde mental e bem-estar online que conecta pessoas a profissionais habilitados, com atendimentos a valor social e sem fidelidade. Também oferece soluções para empresas, com foco em saúde mental no trabalho e NR-1.
Caroline Macarini é psicóloga (CRP 06/156341) e cofundadora da Unolife, com mais de 14 anos de atuação em comportamento humano, desenvolvimento emocional e relações. Ao longo da carreira, acompanhou indivíduos, líderes e equipes tanto na prática clínica quanto no contexto organizacional. Acredita que saúde emocional e autoconhecimento fazem parte da vida cotidiana às relações e transições que moldam quem somos.




